Pela Primeira vez, um windsurfista percorreu a distância da Praia do Cassino até o Chuí em um só dia.Segue abaixo o relato de Renato Pozolo..
PRAIA DO CASSINO – CHUI – 220 KM DIRETO
A idéia nasceu depois que o 6º Downwind organizado pela Windplace, o de 2007, foi cancelado a exemplo do de 2006 fortes ventos de sul que jogam o mar na praia e impedem a passagem dos carros de apoio. Quem já tentou fazer esta travessia sabe dos prazeres e da superação que se tem que fazer para completar o percurso, tanto que até hoje apenas o menor trecho, do Farol do Albardão até o Chui, com 80 km, foram velejados tanto por windsurf como por kite. Este ano , com o cancelamento oficial do Downwind, a gente até que tentou chegar extra oficialmente, mas com vela e prancha grande demais e ventos de nordeste que nos fizeram velejar quase o dobro da distancia , não conseguimos passar dos 74 km do Cassino. Disto ficou a frustração, que se transformou em uma grande vontade de fazer o percurso, e porque não em uma vez só? Para quem gosta de velejar seria um prato ideal, ficar mais de 7 horas navegando, e a experiência dos anos anteriores nos mostrou que era preciso o vento certo, aliado à um bom preparo físico e uma prancha confortável e com uma velocidade razoável. A princípio, Abril foi o mês escolhido para dar tempo de fazer os preparativos físicos corretos, mas de olho na internet, vimos que a sexta feira, dia 16 o vento seria de sudeste, uma orça folgada, quase um través, perfeito para fazer em um bordo só. O desafio seria agüentar mais de 7 horas na mesma posição, especialmente a perna que vai atrás e que agüenta quase todo o peso do corpo. Na noite de quinta chegamos ao Cassino e na manha de sexta já encontramos a equipe de Pelotas formada pelo Leonardo Magalhães, o Marcelo Krespo, ambos de formula e o kitista Gervini que ia dirigindo o carro de apoio, as pranchas já estavam montadas e pelas 11 horas eles se aventuraram num vento de 10 nós que logo parou, voltando a entrar forte pelas 3 horas da tarde, inviabilizando qualquer tentativa de ir muito longe, mas viabilizando um velejo clássico de kite na lagoinha que tem ao lado do navio afundado e onde 10 kitistas velejavam em um espaço de não mais do que 200 metros quadrados.
Sábado sim, as 7:30hs da manhã já estava lá o vento sudeste de uns 14 nós e as 10:10hs O João Marinho o Gustavo e o Didio já estavam arribando com seus kites na água enquanto eu com vela 7,6m e prancha pequena não andei 300 metros e já dei o jibe de volta para a praia, certo de que na iria a lugar nenhum com esse equipamento, pois o mar mexido e picado e com velocidade excessiva a prancha pula de uma onda para a outra, exigindo demais do preparo físico e o stress total não demoraria a aparecer velejando nestas condições. Coloquei então a vela 5,9m e a prancha maior, mais estável e ai sim, singrava aquele mar medonho a velocidades que variavam entre 36 e 48 km/h monitorados no GPS, ao mesmo tempo em que ia monitorando meus movimentos em cima da prancha, porque sabia que quaquer energia economizada ia ser bem vinda depois da quinta hora de velejo. Após 1:30hs de velejo passei pelo Gustavo e pelo João com seus kites e daí fui em frente num velejo solitário até a marca dos 120km quando o vento diminuiu e fui para a praia trocar de vela e fiquei lá, no meio do nada, com o mar de um lado e nenhum sinal de vida nos 2 lados da praia. Pensava que o carro tinha estragado, porque tinha visto ele pela ultima vez no farol do Sarita a 56km para trás. Depois descobri que a equipe de apoio estava usando sua veia bióloga e arqueológica, estudando conchas e analisando vértebras de animais pela praia, e enquanto eu, pelado, secando as roupas terminava de sinalizar a areia, escrevendo que iria até o farol do Albardão, mesmo sem planar, eles chegaram e rapidamente montamos a vela 7,6m e ai, água de novo. Eram quase 3 horas da tarde e neste ponto comecei a pensar que não teria tempo suficiente para terminar o percurso, mas a prancha com esta vela e o vento mais fraco, ficou bem mais confortável e ia rumo ao sudoeste a velocidades entre 28 e 38km/h alternadamente, e antes da 4 horas da tarde passei pelo Albardão e o velejo daí em diante passou a ser o calculo de quanto faltava e se ia chegar no Chui antes das 7:10hs, quando fechava a noite. Ia alternando esperança com frustração ainda mais quando o vento virou mais para leste, empopando mais a prancha de modo que eu ia num rumo que afastava aos poucos da costa e a cada 12 a 15km para frente , tinha que dar um bordo de 3 a 5 km em direção a praia, o que me tirava minutos e kilometragem preciosos e que me levariam mais rápido ao alvo. O tempo foi passando, o sol foi caindo e eu so via água e praia deserta, e velejava, e velejava, e velejava e não aparecia nada, a expectativa era enorme, nem notei mais como eu estava fisicamente, nem mesmo as fisgadas que eu vinha sentindo na perna direita a horas, nem os bíceps endurecidos, nem a batata da perna que estava querendo entrar em câimbra a horas, nem o dedo esfolado e sangrando, nem a pele da cara ressecada pelo sal tinham mais lugar na minha mente, tudo que eu procurava era o farol do Hermenegildo que fica perto do Chui, mas ele não aparecia nunca. Ficava pensando em todo o tempo que perdi antes: cheguei as 10 da manhã na praia, devia ter chegado antes. Perdi tempo trocando de vela e prancha na largada, os estudos arqueológicos da minha equipe de apoio, a mudança na direção do vento e como eu ia administrar ter feito todo esse esforço para no final terminar a 10, 15 km do objetivo, foi quando ela apareceu: Uma antena magrela que tem antes do farol do Hermenegildo e neste momento, parecia que eu recém tinha entrado na água, estava perto, proporcionalmente ao que já tinha velejado, muito perto, mas e o sol? Quase no horizonte, ainda tinha uns 50 minutos de luz, andando a 30 km por hora, iria andar uns 25km, mas e o bordo para a terra? Comecei a bombar a vela para descer as ondas e ir o mais empopado possível e ai visualizei o farol do Chui, lá longe no horizonte, neste momento larguei de mão as contas, agora ia chegar lá com ou sem luz, agora já era, fui presenteado com um pôr do sol laranja por trás da vela após passar o Hermenegildo e já chegando quando dei o ultimo jibe para ir para a praia , cai e ai notei o quanto estava cansado, fazia o water start e caia de novo, levantava no puxão e caia pra trás, ajudado pela falta de luz que me impedia ver as ondas do mar que ainda vinham desordenadamente de tudo que era lado. As 7:40hs cheguei na praia, detonado mas feliz de ter conseguido, rindo sozinho ao mesmo tempo que mal conseguia ficar em pé. Logo chegou a espetacular equipe de apoio (equipernoite), formada por João Marinho, Gustavo Castro, Didio e a pilota Aline Mabel em ritmo de festa e comemoração que acabou com champagne no Chui.
Ao todo foram 253 km velejados segundo a marcação do GPS. Agora é rumar para outra. Será a volta da ilha de Florianópolis??? Quem sabe??
Renato Pozolo